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OU NUNCA TER TIDO, EIS A QUESTÃO
O cenário: um boteco. Personagens: uma turma. O enredo: papo e
cerveja. Lá pelas tantas, alguém levanta a questão mais batida e menos respondida deste
século: o que é pior, nunca ter amado, ou ter amado e perdido o amor?
As opiniões se dividem, mas não em partes iguais. A maioria
acha que é mil vezes melhor ter amado ao menos uma vez do que passar a existência
inteira sem saber o que é receber um beijo apaixonado, nunca ter sido importante para
alguém, nunca ter provocado uma saudade. Muitos concordam que é preferível ter vivido
um grande amor, mesmo que depois tenha padecido no inferno por perdê-lo, do que nunca ter
amado.
No entanto, muitos dos que estão na rua da amargura, desolados
com a ausência do seu amor, prefeririam nunca terem estado apaixonados: abririam mão da
paixão e da dor, escolheriam uma vida anestesiada, sem beijos, mas também sem lágrimas.
Acreditam que o desespero da perda não paga um amor tipo "infinito enquanto
dure", porque geralmente dura pouco, e as lembranças pra nada servem, a não ser
causar mais dor.
Façam suas apostas. Da minha parte, prefiro perder o que tive do
que nunca ter tido: estamos aqui para vivenciar, aprender, dar-se bem e dar-se mal. Não
somos zumbis, robôs, Ets. Caímos no mundo e nele temos que nos virar.
Muda o placar quando o assunto é dinheiro: o que é preferível,
ser pobre para sempre ou passar uma temporada como rico e depois perder tudo? Será melhor
passar a vida inteira com seu arrozinho com feijão, futebol aos sábados e Silvio Santos
aos domingos, ou ter tido a oportunidade de passar férias em Angra, andar de lancha,
tomar champanhe, morar numa cobertura com piscina, ter todas as roupas que sonhou, mesmo
que um dia tudo isso evapore e tenhamos que voltar a passar a pão e água?
A maioria, acredito, iria preferir não sentir o gosto do bem-bom
e ficar com seu arrozinho com feijão, que também tem o seu valor. Champanhe, lancha e
roupa de grife não são essenciais como o amor, pode-se passar sem eles para sempre e
ainda assim ser muito feliz. O máximo que uma temporada na ilha da fantasia pode nos
trazer é uma certa revolta em voltar para o barraco de onde nunca devíamos ter saído.
Quem perde um amor, sofre mas conforma-se. Quem perde dinheiro, sofre e corrompe-se.
Amor, que a gente tenha nem que seja por um dia. Dinheiro, que
venha para sempre ou fique onde está.
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