| BATER
EM RETIRADA
Vocês namoram há um tempão. No começo era aquele grude, dia e
noite juntos. Aí passou a novidade. A atração diminuiu. O programa passou a ser pizza e
videocassete, a dobradinha letal. Apesar de tudo, continuavam numa boa. Até que um dia
você encontra um ex-colega e ele parece muito mais moço que você. Bate saudade da
turma. Você descobre que está totalmente desinformado sobre os bares que abriram na
cidade. Começa a reparar na quantidade de gente bonita circulando pela noite. Sua
namorada reage mal quando você elogia a nova cor do cabelo dela: "você deve estar
brincando, há seis meses que eu estou ruiva". Sua sensação é a de estar voltando
de um coma. Você estava morto e abriu os olhos. E terá que encarar a dura realidade:
não está mais a fim desse lenga-lenga. Quer bater em retirada. Terminar o namoro. E vai
ser hoje.
Levar um fora é cruel. Mexe profundamente com a nossa
auto-estima. Aquele que deu o fora sempre sai vitorioso de cena, pois foi ele quem
escolheu esse desfecho, ele é o juiz, enquanto o outro leva um cartão vermelho sem ao
menos saber por quê. Por outro lado, dispensar alguém que ainda gosta da gente também
não é tarefa fácil, a não ser que se tenha a sensibilidade de um desentupidor de pia.
Não é o caso do nosso convalescente do coma. Vai ser hoje, ele
disse. Mas existe alguma maneira indolor de dar uma notícia dessas? Ele passa a tarde
maquinando. Deixar esfriar e não atender mais os telefonemas é uma tática boa, mas
demorada. Tem que ser hoje, ele encasquetou.
Cruzar na frente dela com outra garota. Cruel demais.
Mandar recado através de um amigo. Covarde demais.
Pedir um tempo. Cretino demais.
"Nosso amor subiu no telhado". Ela vai jogar uma
garrafa na sua cabeça. Dizer que você sofre de uma doença terminal e não quer que ela
sofra assistindo o seu fim. Dizer que seus pais acham você muito moço para se amarrar.
Dizer que ela é boa demais pra você, merece um cara melhor. Dizer que você finalmente
descobriu sua vocação: vai ser padre. Dizer que só agora deu-se conta que é gay. Tempo
esgotado: são sete e meia, hora de bater o ponto na casa da sogra. Vai ser hoje.
Blim-blom. Entra, Augusto. A Rita não está mas deixou esse
bilhete pra você. "Guto, não quero te magoar mas não tem outro jeito. Nosso namoro
deu o que tinha que dar, foi bom enquanto durou. Somos jovens demais para nos acomodar, o
mundo está chamando lá fora. É hora de conhecermos outras pessoas, inclusive a nós
mesmos. Te cuida".
Foi mais fácil do que você pensava. Agora volte pra casa,
tranque todas as portas e abra o gás.
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