
Americano à vista?
Fique no aperto de mão
M ichael Kepp é um jornalista americano que trocou os Estados Unidos pelo Brasil, 16 anos atrás, basicamente por uma razão: a cultura americana deixou de fasciná-lo. Sendo assim, mudou para um país que tem uma cultura que o fascina. Kepp ganha a vida escrevendo artigos sobre o tema (e também sobre negócios) para diversas publicações americanas e brasileiras. Kepp , 49 anos, mora no Rio de Janeiro e é casado com uma brasileira. Neste artigo que escreveu para VOCÊ S.A., ele fala de uma das diferenças culturais que mais o intriga: nosso jeito caloroso de cumprimentar as pessoas.
Um conselho para os brasileiros que planejam relacionar-se com americanos por razões pessoais ou profissionais: esse tipo de gringo, a fim de manter distância das outras pessoas, cria em volta de si um espaço que permite apenas um único tipo de contato físico. É o aperto de mão. Qualquer tentativa à brasileira de entrar no espaço de um americano - beijos cordiais, abraços ou tapinhas nas costas - pode colocar o americano (ou a americana) em estado de alerta. A menos, claro, que você seja a mãe dele.
Dar um
tapinha na barriga de um americano é como
insinuar que ele tem um sério problema de peso
Cumprimente-o com um "insulto carinhoso" tipicamente brasileiro, como o equivalente nos Estados Unidos a "seu cafajeste", e veja o que acontece.
Como um aperto de mão denota apenas um apelo emocional limitado, os americanos demonstram seus sentimentos mútuos por meio de um olhar momentâneo, mas intenso, que trocam durante esse gesto. Mas esse olhar não deve se prolongar além do aperto de mão, especialmente entre pessoas de sexos opostos. Tampouco deve ser irradiante. Os americanos não trocam "olhares longos", irradiantes, a menos que estejam apaixonados ou pertençam a algum tipo estranho de culto religioso.
Embora a maioria dos americanos de sexos opostos, especialmente num contexto profissional, cumprimente-se com um aperto de mão, muitos, ao contrário, apenas dizem "alô" de forma seca, evitando assim qualquer espécie de contato físico. Isso faz com que os franceses, que se beijam no rosto, e mesmos os ingleses, que fazem questão do aperto de mão independentemente do sexo, pareçam calorosos comparados aos americanos.
Além do
aperto de mão, as pessoas de sexos
opostos devem evitar qualquer contato físico
No Brasil, um homem pode tocar o braço de uma mulher para realçar um ponto de vista ou mostrar que algo dito por ela o emocionou. Nos Estados Unidos, esse gesto inocente pode causar uma impressão enganosa à mulher, e até mesmo levar um homem ao tribunal. Aquele é, afinal, o país onde o assédio sexual começou.
Não é de admirar que os professores universitários americanos protejam-se deixando as portas de seus escritórios abertas quando estão em companhia de um estudante do sexo feminino. Isso também explica o fato de os professores do ensino fundamental serem proibidos de tocar os alunos. O contato físico é um tabu tão grande que, mesmo aquele que não pode ser evitado (duas pessoas acima do peso sentadas juntas em um ônibus lotado, por exemplo) pode resultar em olhares ou observações hostis.
Para conquistar um americano, deve-se lançar mão do recurso verbal, nunca do físico. Mas não por meio de piadas, um dos jeitos favoritos dos brasileiros. Se for mesmo necessário lançar mão de anedotas, é melhor escolher as pessoais e comoventes (desde que não sejam terrivelmente piegas). Ainda que seja o primeiro encontro, mesmo que profissional, os americanos admiram as confissões pessoais. Por essa razão, ao contrário dos brasileiros, eles estabelecem contato e, depois, confiança. Fazem confidências, em vez de se expressarem pelo tato. É por isso que os terapeutas, as autobiografias reveladoras de celebridades, os filmes de Woody Allen e os talk-shows fazem tanto sucesso nos Estados Unidos.
Uma conversa sobre intimidades com um americano pode ajudar a criar uma amizade duradoura e até mesmo a fechar negócios. Após anos de relacionamento verbal, um americano talvez arrisque entrar no espaço físico do outro dando um meio-abraço. A pessoa que o receber deve, mesmo que esteja em estado de choque, retribuir. Dois meios-abraços não deveriam resultar num abraço inteiro - e de fato não resultam em nenhum outro lugar do planeta. Com exceção dos Estados Unidos, a terra do aperto de mão.
MICHAEL KEPP
